Tecnologias acessíveis podem melhorar a educação pública brasileira

Em artigo produzido para o iFood News, Débora Nunes, especialista em produtos na Fundação 1Bi, mostra como ferramentas como o AprendiZAP estão fazendo isso

Ferramentas digitais têm grande potencial para melhorar processos na educação e melhorar a aprendizagem de estudantes brasileiros. Contudo, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2021, 16% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos das classes D e E não têm acesso à internet. E, quando têm, 78% deles acessam a internet exclusivamente pelo celular. Durante a pandemia de Covid-19 essa barreira de acesso ao mundo digital foi escancarada e trouxe impactos muito grandes na educação das pessoas mais vulneráveis.

Então, é possível usar tecnologias digitais para melhorar a educação pública – um dos maiores desafios brasileiros? Para responder essa pergunta, podemos separar esse problema em dois: o primeiro é a criação de tecnologias para estudantes que só têm acesso à internet por meio do celular e o segundo é o desenvolvimento de ferramentas para as alunas e os alunos que ainda estão offline.

No primeiro caso, podemos desenvolver produtos digitais que são acessíveis para dispositivos mais simples, como celulares com pouca memória, e pacotes de dados móveis mais básicos. O AprendiZAP, por exemplo, é uma ferramenta de reforço escolar que envia conteúdos e exercícios por WhatsApp, um canal usado por 93% das e dos estudantes das classes D e E. Já aplicativos e plataformas web não são soluções acessíveis para esse público porque o acesso a aparelhos tecnológicos e internet é intermitente e desigual. 

Mas o público mais desafiador é o de crianças e jovens que ainda estão offline, que representa 16% das classes mais vulneráveis e 10% da zona rural. Nesse caso, precisamos construir produtos conhecidos como “figitais” ferramentas que usam as dimensões física e virtual ao mesmo tempo. As escolas públicas chegam a praticamente todas as alunas e todos os alunos e têm um ambiente de aprendizagem muito rico na sala de aula, que é offline. A tecnologia pode ajudar professores que estão em contato com esses estudantes na automatização de processos, criação de conteúdo, análise de dados de avaliações etc. 

O AprendiZAP mesmo começou como um chabot para alunas e alunos que acessam o WhatsApp, mas expandiu a atuação para docentes. O objetivo dessa mudança é melhorar a aprendizagem também das turmas que estão offline. O AprendiZAP Professores é uma plataforma que apoia na construção de aulas incríveis, fornecendo conteúdos prontos, possibilidade de criação de planos de aula e avaliações. Ou seja, é a tecnologia auxiliando professores em processos que podem ser automatizados, para eles utilizarem os materiais no dia a dia offline da sala de aula, melhorando, assim, a aprendizagem dos estudantes. Com essa expansão “figital” o AprendiZAP cresceu 3,8 vezes em 2022 e chegou a 700 mil pessoas. 

Essa estratégia de produtos que misturam o uso físico com o digital pode ser usada em programas de ESG – sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa – com públicos offline. É necessário definir um público intermediário, como, nesse caso, professores, e mapear onde a ferramenta digital pode atuar. Depois disso, é importante entender como será a transição entre o mundo virtual e o real. Por exemplo, se um ambiente de aprendizagem virtual vai ser usado em uma ONG de região vulnerável, é necessário pensar: Qual computador será usado? Qual é a velocidade da internet? Os estudantes saberão usar os softwares necessários?

Para as classes sociais mais vulneráveis, o acesso à internet ainda não é total e os dispositivos e formas de uso são muito desiguais. Os projetos de ESG têm olhado cada vez mais para a tecnologia na solução de problemas sociais. Mas, para realmente explorar esse potencial da tecnologia, temos que criar ferramentas digitais em canais acessíveis e produtos “figitais”, que usam o mundo digital e físico ao mesmo tempo para resolver parte de um problema social.

*Débora Nunes é especialista em produtos na Fundação 1Bi e criadora do AprendiZAP.

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